A lei do mais forte
Uma tarde linda. Uma segunda-feira ensolarada. Os raios do sol refletiam entre os troncos de árvores com mais de 5 metros de altura. Não é um parque público, mas o cenário bem que poderia ser. Esse é o ambiente no qual circulam, livremente, policiais militares que cometeram algum crime e esperam o julgamento. Também tem aqueles que já foram condenados.
Quando digo que eles circulam livremente, não me refiro ao pátio, mas, sim, uma área externa, portão afora. Um deles, vestindo calça caqui e camiseta amarela, com as iniciais PMRG (Presídio Militar Romão Gomes), trocava carícias com uma mulher, no estacionamento que fica do lado de fora. Ao avistar o carro de uma emissora (no qual eu estava) e meu olhar inquieto, ela deixou a área externa e voltou às ruas. Só então pude reparar que eu a tinha visto passar por mim, falando ao celular, pouco tempo antes. Muito provavelmente, ela e o interno estavam combinando o encontro. A mulher passou por mim e entrou pelos fundos de uma das mansões que tem no bairro.
O policial detido continuou do lado de fora, caminhando em círculos por um campo de futebol de várzea, se exercitando livremente, sem que um segurança sequer o monitorasse.
Enquanto gravava a fachada do presídio para uma matéria, que nada tinha a ver com esse assunto, fui indagada por um superior, daqueles de alta patente, sobre o que eu fazia ali. Expliquei. Na sequência, ele me perguntou:
“Você vai demorar? Pergunto porque tenho que sair com os internos para fazer um trabalho externo e muitos deles não vão querer aparecer na televisão.”
Meu queixo caiu. Quis perguntar:
“Como assim eles vão sair para fazer trabalho externo? Onde? Aqui na rua?”
Chocada, só consegui responder:
“Não, não. Já estamos indo embora.”
É claro que esperei escondida, numa das ruas, para tentar o flagra e denunciar o abuso. Obviamente, eles foram mais espertos – outra vez – e não saíram, pelo menos naquele dia.
O motorista da equipe, que mora na região e já trabalhou dirigindo ônibus por ali, me contou que era comum encontrar com PMs detidos circulando livremente nos coletivos ou bebendo nas padarias do bairro.
Enquanto isso, me tranco em casa, no carro, seguro minha bolsa firmemente ao andar à noite pelas ruas e não falo ao celular. Me falta segurança, falta policial e sobra bandido.