No Miramar com Pepetela
Antes de contar como foi o encontro com o escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela, é imprescindível explicar como se deu meu primeiro contato com a literatura dele, há cerca de oito anos. Em dezembro de 2006, já morando alguns meses em Luanda, fui escolhido para viajar até Cabinda, na região norte do país, com o intuito de produzir e escrever uma reportagem sobre o processo de paz nesta província. Apesar de o acordo de paz em Angola ter sido assinado quatro anos antes, alguns conflitos em Cabinda ainda eram registrados e havia a forte presença de grupos separatistas, que não aceitavam fazer parte da República criada pelo MPLA, o Movimento Popular de Libertação de Angola. Os esforços foram muitos, por parte do governo angolano, para estabelecer a paz nesta região. Entre eles, estava o aquartelamento de tropas da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda, as chamadas FLEC.
A ideia era desmobilizar pelo menos 500 militares dessa organização. Alguns soldados seriam incorporados às Forças Armadas Angolanas e à Polícia Nacional. O nosso objetivo era mostrar o aquartelamento de tropas em acampamentos localizados no interior da floresta do Mayombe, a segunda maior do mundo, que abrange os territórios de Angola, República Democrática do Congo e Gabão. Uma preciosidade tropical, com uma riquíssima biodiversidade. Após algumas horas de jipe mata adentro, chegamos ao acampamento dos militares. Lembro bem que gravamos o dia inteiro e, no cair da tarde, retornamos para a sede da província, onde estávamos hospedados. No caminho de volta, vendo os desenhos que o sol fazia nos troncos das árvores e nas folhas, que tentavam impedir nossa passagem, senti que aquele lugar era especial. Já no hotel, encontrei Matias, um simpático funcionário do governo provincial, que me convidou para beber um “fino da Cuca”, num restaurante do outro lado da rua. Entre uma caneca e outra, acabamos conversando sobre a floresta e ele me disse que ela dava nome a um dos romances mais fascinantes de Pepetela. Já tinha ouvido falar muito do escritor, mas, até então, nada havia lido da obra dele. Naquela noite, adormeci tentando imaginar a trama e os personagens do livro.
No dia seguinte, quando me preparava para embarcar no avião que nos levaria de volta à Luanda, sou surpreendido por Matias, que, correndo em minha direção, trazia um exemplar de Mayombe, de Pepetela. Ele não disse nada, apenas sorriu amavelmente, enquanto eu agradecia a surpresa. Matias sentia orgulho da terra dele e queria que eu levasse um pouco dela para onde quer que fosse. Matias conseguiu alcançar o objetivo e eu me encantei pela narrativa de Pepetela. Todo esse “nariz de cera”, disfarçado de preâmbulo, era para dizer que, agora em 2014, oito anos depois, na minha terceira temporada de Angola, tive a felicidade de conhecer e entrevistar Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. Numa tarde fria de cacimbo, ele nos recebeu no quintal de casa, no bairro do Miramar. Conversamos durante cerca de duas horas. Eu, que já era encantado pelo escritor, fiquei ainda mais pela pessoa. Vestido socialmente para o encontro, Pepetela destoava da vestimenta formal. Com muita humildade e simplicidade, nos contou sobre a trajetória literária, sobre a história do país, os costumes do povo dele, a paixão pela literatura brasileira e a inabalável fé na arte escrita como ferramenta de transformação.