Porrada na cara

Marco Archer morreu porque tinha que morrer

servido por: Felipe Batista

De olhos vendados, foi fuzilado. Por um único tiro, no peito, disseram. Mas que cagaço! Deve ser uma merda morrer assim… em outro país, julgado por outras leis, outros costumes, outras regras e medidas. Com o cu na mão, Marco Archer morreu assim: humilhado. Na guerra contra as drogas, Marco perdeu. Perdeu feio. De lavada…

Não me levem a mal, não sou a favor de pena de morte, não acho que essa é a nossa realidade. Também não acho que sair matando bandido, igual os policiais têm feito, seja a melhor medida na luta contra o crime. Eu não sou ninguém para julgar se a atitude da Indonésia é certa ou errada. Nem a de Archer. Mas ele tinha que morrer. E eu já te falo o porquê.

O Brasil ficou perplexo. Sempre tão pacifistas, chocou ver um compatriota nosso prestes a ser executado. Revoltou muita gente por aí. E não é por menos. É a nossa realidade… é a nossa cultura e nossa maneira de pensar. Era o primeiro brasileiro executado pela pena de morte no exterior.

Marco Archer Cardoso Moreira, de 53 anos, foi preso, em 2003, depois que tentou entrar em território indonésio com 13,4kg de cocaína, escondidos numa asa delta. O cara morreu por causa de 13 quilos de cocaína. Tem gente que, por muito mais, está solto nas ruas do Brasil. Mas, na Indonésia, o cerco contra as drogas se fechou. E foi por isso que Marco e outros quatro prisioneiros estrangeiros foram executados.

É preciso falar, é claro, que o presidente Joko Widodo, recém-eleito, é um belo de um cuzão. Negou clemência aos condenados à morte, mas pede que uma cidadã indonésia, que assassinou e roubou a chefe na Arábia Saudita, e aguarda no corredor da morte, seja extraditada.

Maria Laura Canineu, representante brasileira da Human Rights Watch, chamou Widodo de “incoerente e hipócrita”. A organização acha que são dois pesos e duas medidas. E eu também acho. Porque pimenta no cu dos outros é refresco. Mas o Marco tinha que morrer.

O governo brasileiro até tentou, de última hora – como sempre -, reverter o caso. Mas era tarde demais. Joko não se solidarizou com o pedido, de mãe e chefe de Estado, de Dilma Rousseff. E disse que todos os processos e trâmites legais foram feitos. Já não havia mais caminho de volta. Marco nos provou que a droga é uma via de mão única.

E se você ficou com pena dele, saiba que vem mais por aí. Outro brasileiro está no corredor da morte da Indonésia. O paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, também condenado por tráfico de drogas, foi flagrado com 6kg de cocaína, em 2004. E deve ser executado em fevereiro. A mãe de Rodrigo, perplexa, diz que a pena é “um exagero”. E confessou que “nunca se pode perder a esperança”. Que ela realmente não perca. Porque Rodrigo já perdeu tudo.

Em um último vídeo, divulgado pelo cineasta Marcos Prado, dois dias antes da execução, Marco Archer confessava que cometeu um erro gravíssimo. E pedia mais uma chance “porque todo mundo erra”. O carioca ainda pediu perdão, disse que queria voltar ao Brasil para “ensinar os jovens aí (daqui) que a droga só leva a dois caminhos: ou à prisão ou à morte”. Parece que Marco teve que morrer para provar isso.

E ele nos deixa um aprendizado enorme, muito maior do que a questão de direitos humanos, do caminho das drogas ou qualquer outra coisa: o povo brasileiro, me incluindo nesta lista, precisa parar com essa melindragem. Essa vontade de querer sempre passar na frente, dar uma de esperto, deixar alguém para trás. Marco Archer morreu para nos mostrar isso. Foi o primeiro, mas não vai ser o último. Quantos mais vão ter que morrer?