Estado Islâmico: o perigo bate à porta
Adolescentes. Por onde andam, nunca estão sozinhos. Sempre foi assim, em qualquer lugar do mundo. Com elas, não é diferente. Amira Abase, de 15 anos, Shamima Begum, também de 15, e Kadiza Sultana, de 16. As amigas muçulmanas deixaram a cosmopolita Grã-Bretanha em alerta: embarcaram de Londres para Istambul, na Turquia, na última terça-feira, para possivelmente se juntar aos terroristas do Estado Islâmico. Elas se encontrariam com uma amiga, também britânica, que já estava na Síria com militantes desde dezembro. Para trás, deixaram rastros de discussão política e famílias em estado de choque. A passagem era só de ida.
Os jihadistas nem precisaram de muito para seduzi-las. Pela internet, Amira, Shamima e Kadiza foram radicalizadas dentro do próprio quarto. Aos pais, cada uma disse que iria passar o dia fora com as amigas. Algo comum na adolescência. O Estado Islâmico é uma ameaça constante para o mundo todo. Agora, até dentro de casa – o lugar mais seguro do mundo.
A esperança de que as jovens não tivessem ido da Turquia para a Síria, reduto dos extremistas, veio abaixo hoje. Autoridades confirmaram que as três inglesas entraram em território sírio há quatro ou cinco dias. Cruzaram a fronteira da barbárie, onde a paz dá lugar ao terror.
Amira, Shamima e Kadiza são mais três, são números em uma estatística que não para de crescer. Estima-se que cerca de 500 britânicos tenham deixado o país para se juntar ao grupo terrorista na Síria e no Iraque. Um dado que desespera as famílias e preocupa, principalmente, as autoridades europeias: o perigo mora logo ao lado.
Depois das bombas, decapitações, homens enjaulados, o Estado Islâmico, agora, ataca quem mais sofre: os pais. A violência destes jihadistas está cada vez mais baixa. E silenciosa. Mas o que tem feito tantos jovens saudáveis, com um futuro promissor e com brilho nos olhos, largar tudo para se tornar um terrorista?
Falta base familiar em um mundo que é cada vez mais louco e diferente. Para a psicóloga Maria Augusta Roncari, o problema é a falta de controle dos pais:
“O que tenho percebido, hoje, é o excesso de liberdade precoce que se dá às crianças e a falta de limite que enfrentam. Perdidos, eles procuram figuras expressivas de poder e controle para si próprios, talvez para suprir a falta desse papel que se poderia ter na família ou escola.”
Vindo de uma das regiões mais perigosas do mundo, fica o alerta da violência que não tem cheiro de pólvora, rastro de sangue ou cabeças decapitadas: a falta de diálogo com os filhos. Não é “aborrescência”. É a adolescência como ela é: cheia de dúvidas, incertezas, medo e insegurança. Um pequeno deslize e o Estado Islâmico, ou tantos outros perigos, bate à porta.
O Estado Islâmico é um grupo jihadista extremista, que busca criar um califado em parte da Síria e do Iraque. Para isso, os integrantes combatem os soldados iraquianos, sequestram jornalistas, assassinam cristãos e fazem mulheres de escravas. São movidos ao ódio pelos xiitas, às minorias, aos Estados Unidos e ao Ocidente em geral. É considerado, hoje, um dos grupos terroristas mais perigosos do mundo.