O peso que só um microfone e uma arma têm
Vester Lee Flanagan II tem passos largos. Calmos. Ele anda pelo píer, checa a câmera. Dá zoom. Foca. Aproxima-se e checa a arma. Olha para o cinegrafista, espera o profissional apontar a câmera para a repórter, para que ele também aponte. A arma. Tudo sem ninguém perceber. É o peso que um microfone tem. É a concentração que um microfone exige.
Flanagan começa a atirar deliberadamente na jovem Alison Parker. Em seguida, mata o repórter cinematográfico Adam Ward. Ao todo, são cerca de 15 tiros. Vester Lee Flanagan II, então, é flagrado na última imagem que Adam fez em vida: a do assassino dele.
De volta à bancada, a apresentadora, visivelmente estarrecida, diz não saber o que aconteceu. Mas o olhar dela diz tudo. Dois jornalistas acabavam de ser assassinados ao vivo. Barbárie transmitida em tempo real. Por trás das câmeras do estúdio, estava trabalhando a namorada do cinegrafista Adam Ward, na coordenação técnica do jornal. Viu o namorado ser morto ao vivo. Sem piedade alguma.
A morte dos dois jornalistas do estado americano da Virgínia, na última quarta-feira, tomou os noticiários do mundo todo. E trouxe à tona um assunto recorrente, mas que parece estar longe do fim: a comercialização livre de armas nos Estados Unidos.
Num país onde há mais mortos por armas de fogo do que vítimas do terrorismo, o ataque aos dois repórteres é quase que um crime premeditado. Um negro, que provavelmente sofria de depressão, que se sentia injustiçado, com uma arma na mão. Bryce Williams, como era conhecido na TV, só sente o peso da arma depois que mata. Ele foge, dá um tiro em si mesmo, mas não morre. Só vem a falecer no hospital.
Na quarta-feira, curiosamente, o Walmart anunciou que deixaria de vender rifles AR-15 na rede de lojas do país. O motivo parece piada, mas não é. As vendas das semiautomáticas caíram. Como levar a sério um país assim? O Congresso sabe que vender armas é perigoso, mas é lucrativo. Só esquece que dinheiro não compra vida.
Mas o que é mais difícil de engolir, principalmente para gente que trabalha em redação de TV, é aquela imagem. Ao vivo. Tão fria, tão cruel. Poderia ser eu, poderia ser meu amigo repórter – que cruzei antes de entrar no elevador –, ou o cinegrafista, que cumprimentei na catraca. O que veio à tona, para mim, é o peso que o microfone que um repórter carrega tem: é difícil demais ser jornalista. É árduo demais ser repórter de TV.
É difícil até chegar o dia de aparecer no vídeo, é difícil aguentar as inúmeras críticas, os poucos elogios, a correria de trabalhar na rua para resumir tudo o que aconteceu em um minuto. O microfone pesa. A câmera também. A responsabilidade – que eles trazem – pesa. Carregar uma arma, uma vida… também é pesado. Mas a diferença é que, enquanto eles estão por aí, matando, a gente precisa estar aqui, noticiando. E chorando, de vez em quando.