crise imigrantes

Alemanha dá exemplo e Hungria envergonha o mundo

servido por: Felipe Batista
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Grafite em homenagem a Aylan Kurdi em Sorocaba, SP
Grafite em homenagem a Aylan Kurdi em Sorocaba, SP
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São 432.761 pessoas que arriscaram as vidas e cruzaram o Mediterrâneo somente este ano. O dobro comparado ao ano passado inteiro. Gente que foge da guerra. Da fome. Da pobreza. De uma esperança que não tem luz no fim do túnel.

O mundo todo parou, e chorou, ao ver a foto do pequeno Aylan Kurdi, de apenas três anos, morto naquela praia da Turquia. Fugindo com a família de uma guerra que assombra a Síria há quatro anos, a criança foi o símbolo dessa crise dos refugiados – a maior desde a Segunda Guerra Mundial. Para ajudá-los a melhorar de vida, há quem esteja fazendo muito. E há quem esteja fazendo apenas a obrigação, e bem mal feita.

Tudo começou com a bela Islândia dando um exemplo de solidariedade. Fora da União Europeia, os cidadãos diziam, em uma carta aberta, que fazem questão de receber mais imigrantes no país (atualmente, são apenas 50 por ano): “os refugiados são nossos futuros maridos e mulheres, melhores amigos ou almas gêmeas. Eles são os bateristas da banda dos nossos filhos, nosso futuro colega, a Miss Islândia 2022, o carpinteiro que finalmente vai terminar o banheiro, o atendente da cafeteria, o bombeiro, o gênio da informática ou o apresentador de televisão”.

No quesito gentilidade, a Alemanha – maior economia do bloco – também tem feito o dever de casa. A chanceler Angela Merkel anunciou, na semana passada, que o país concederia asilo a 800 mil refugiados neste ano. “Como um país financeiramente saudável e forte, temos a força para fazer o que é necessário”, afirmou a sensata Merkel.

É claro que a Alemanha também se beneficia com o fluxo migratório, até porque, segundo a Comissão Europeia, a população do país encolherá em 10 milhões de pessoas até 2060. Ou seja, quanto mais jovens trabalhadores, melhor. Mas é bonito demais ver aquelas dezenas, talvez centenas de pessoas que receberam os imigrantes com cartazes de boas-vindas, abraços calorosos e palavras gentis. Era gente querendo mostrar que a Alemanha nazista ficou nos livros de história.

A Áustria também fez bonito. A população entrou nos carros e deu carona àqueles que chegavam ao país, após percorrer 180km a pé. É o exemplo de solidariedade que a Hungria ainda não deu.

Além de um primeiro-ministro babaca e xenófobo, o país mostrou que tem muito cidadão andando para trás e uma polícia mais ineficaz que a de Geraldo Alckmin. E eu que achava que isso era impossível… imagens divulgadas hoje mostram a tão insensível polícia húngara arremessando comida a cerca de 300 refugiados, que lutavam por um lanche e um pouco de água. No vídeo postado no YouTube, o jornalista diz que essas pessoas ainda são privilegiadas, porque algumas outras têm que dormir em barracas ou ao ar livre, do lado de fora do refúgio temporário.

Nesta semana, uma cinegrafista de uma TV húngara, que registrava imagens de pessoas cruzando as cercas para chegar ao país – porta de entrada à Europa Ocidental –, também foi flagrada num ato de covardia. Naquele corre-corre com a polícia, Petra László foi filmada chutando dois jovens e um homem com uma criança no colo. Ele tropeça e cai. Mostra ao mundo que a jornalista e as autoridades húngaras não têm solidariedade alguma.

Ela foi demitida da emissora – aliada de um partido de extrema direita –, que defende ideias neonazistas, antissemitas e anti-imigração, e a promotoria abriu processo contra Petra, que disse, hoje, a um jornal do país, que estava assustada:

“Eu não sou uma cinegrafista sem coração, racista, chutadora de crianças. Eu não mereço isso, nem a caça às bruxas política contra mim, nem a difamação, as muitas ameaças de morte. Eu sou apenas uma mulher, desde então, uma mãe desempregada de crianças pequenas, que trouxeram uma situação de pânico, uma má decisão. Eu realmente sinto muito.”

Eu, como condição de não-refugiado, que sempre tive todos os itens necessários para viver e a oportunidade de nascer e crescer num país pacifista, peço desculpa por poder fazer tão pouco a esses imigrantes que chegam, inclusive, ao Brasil. A cinegrafista Petra László não tem o direito moral de pedir desculpa. Quem vê um problema desse tamanho, de tão perto, e tenta intensificá-lo ainda mais, em vez de tentar resolvê-lo, não tem esse direito. “Pessoas más não são bons jornalistas”.