Irmandade

Sobre tempestades e calmarias: ser filho único não é nem um, nem o outro

servido por: Felipe Batista

Amigos, não me levem a mal. Eu não sou filho único e não tenho ideia do que é ganhar brinquedo novo no dia das crianças e não ter que dividir com ninguém. Os filhos únicos que me perdoem, mas não ter brinquedo roubado pelo irmão deve ser uma droga.

Por falta de um, a vida me deu logo dois. Acho que é para ter a certeza que, do mal da individualidade, eu não vou sofrer. Deus foi caridoso comigo. E paciente. Somos três gênios tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, tão parecidos. Ele é ansiedade, ela é calmaria. Ele tem dúvida, ela não sabe. Ele é uma tempestade de certeza, ela é um deserto de dúvida. Eu não sou nem um, nem o outro. Mas sou um pouco de um, um pouco do outro.

A gente se completa. Briga, discute e debate. Mas a gente, sem um, não seria o outro. Ser irmão é isso, afinal. Irmãos têm aquela coisa de sentir quando algo não vai bem… é aquele desabafo que seus pais não entenderiam, aquela conversa que até seu melhor amigo discordaria. Ser irmão é experimentar aquele sentimento de querer matar às vezes, mas ter a certeza que você morreria por eles. Como é que um filho único cresce sem saber o que são todas essas emoções?

O Rodrigo tem um olhar profundo, que diz tanta coisa. A Bruna diz mais em palavras, em risadas. Ao nos olharmos numa situação embaraçosa, a gente conversa pelos olhos. Esse é o nosso melhor talento como irmãos. A gente é diferente, mas a gente se entende. Sabe aquela coisa de não ter que se explicar? O ombro para chorar ou sorrir, sem ter que contar o que aconteceu? A tempestade dele, seguida pela calmaria dela. Sem um, não tem o outro. E eu estaria preso em meio ao mau tempo.

Acontece que a tempestade foi embora. Um mês depois, a calmaria também. E eu fiquei. Ele na Dinamarca, ela em Portugal. Eu no lugar de sempre… é justo, porque os dois têm um talento imensurável, nadam contra a correnteza, em busca de algo que os completa, que os faz feliz. Felicidade que a gente, aqui em casa, só encontra dentro de um avião, em um portão de embarque. A gente não consegue ficar parado. Mas coração de aventureiro tem dessas: um dia aqui, outro lá.

Eu aqui, eles lá. Eu, quem diria, me tornei filho único. Está querendo acabar comigo, Deus? Mas nunca um oceano de diferença nos juntou tanto, nos fez tão irmãos, tão unidos. Essa harmonia que ultrapassa as paredes do quarto, essa sintonia que não depende do mesmo teto.

Além de tudo o que dois irmãos mais velhos têm a passar para o irmão caçula, o Rodrigo e a Bruna me ensinaram o que é o amor. Nem todo irmão ensina isso. Esqueçam tudo o que falam sobre o amor por aí. Amar é querer estar junto. E quando não pode estar junto fisicamente, se junta no pensamento. Naquele olhar da situação embaraçosa, num almoço de família.

Eu sinto a presença dele quando ouço aquela música que eles amam… e eu, odeio. Posso ouvir a risada dela quando alguma coisa engraçada acontece no meu trabalho. E sei que eles me sentem em cada esquina de Lisboa, em cada vento frio de Copenhague.

Eu não sei o que é ser filho único… e nunca vou saber. Mas sei que, só quem tem irmão, sabe o que é ter, dentro de casa, a calmaria e a tempestade. Um seguido do outro… às vezes, tudo ao mesmo tempo. Ele diz que, quando se entra num avião, nada é longe. Ela diz que sintonia nos conecta mais do que qualquer aeroporto. Eu digo que, com tempestade ou calmaria, eu cruzo esse oceano, nem que for a braçadas. Só para ver o olhar profundo dele, ouvir a risada alta dela. Tudo isso para estarmos juntos.

Amar é isso. É fazer tudo isso… em pensamento. Ao acordar, olhar para o lado e ver a cama dele vazia. O quarto dela sem o barulho do secador. Eu sou calmaria. E sou tempestade. Calmaria de amor, tempestade de saudade. Nós três somos um só.