SeaWorld: do sonho ao pesadelo

Ele é gigante. Pesa mais de cinco toneladas. “Sorri” para as fotos, joga água no público, faz a alegria de crianças e adultos que lotam o SeaWorld, na Flórida, todos os dias. Tilikum é a maior orca em cativeiro do mundo e carrega, no currículo, o envolvimento em três mortes. A “baleia-assassina”, como são conhecidas as orcas, pertence, na verdade, à família dos golfinhos. Mas criou um verdadeiro instinto assassino. Não porque quer ou porque esta seja a intuição das baleias-orcas. Muito pelo contrário… foram os parques aquáticos que fizeram de Tilikum o que ativistas consideram uma “bomba-relógio”.
Para entender a crise que o SeaWorld enfrenta nos dias de hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Mais precisamente em 1983, quando um grupo de caça saiu mar adentro, no Atlântico Norte, próximo à Islândia, com a intenção de capturar filhotes de baleias-orcas para vender aos parques americanos. A caça aos mamíferos era comum e legal na época. E quem interessava eram os bebês… presas mais fáceis e ainda adestráveis. O saldo do dia: três filhotes. Tilikum era um deles.
Tili passou um ano num zoológico marinho da Islândia e, então, foi vendido para o parque canadense Sealand. Longe da família, a infância trágica e sofrida do animal piorou naquele instante. Tilikum tinha que dividir um tanque pequeno com duas orcas fêmeas, que, muitas vezes, maltratavam o pobre animal. O motivo? O treinamento era de choque… toda vez que Tilikum errava algum número, os três animais deixavam de receber comida como castigo. E é claro que ninguém ficava feliz com essa situação.
Tili passava 14 horas por dia num tanque 6m x 9m e, muitas vezes, com fome. É como se você ficasse o dia dentro de uma banheira, sem comida. Quem é o filho da puta que faz isso com um animal tão carinhoso?
Foi então que, em 1991, veio a vingança: uma treinadora, de 20 anos de idade, teria caído na piscina das três orcas. As baleias jogaram Keltie Byrnie de lá para cá, como se fosse um brinquedo. Era o primeiro envolvimento de Tilikum num assassinato. Keltie morreu afogada e, para o túmulo, levou o Sealand inteiro. O parque fechou as portas e vendeu os animais ao gigante SeaWorld, no vizinho Estados Unidos.
VIDA NOVA, VELHA VIDA
Você deve estar pensando que a vida de Tilikum deve ter melhorado agora, vivendo num parque famoso, com uma piscina maior e mais confortável, com novos companheiros de tanque. De fato melhorou, mas o confinamento era o mesmo.
E como se não pudesse piorar, o SeaWorld resolveu reproduzir as orcas em cativeiro. A maior vítima foi Tili, que estava na fase mais fértil. Os veterinários coletaram espermas do animal para fazer fertilizações in vitro em massa. Ou seja, o então dócil bebê-baleia, agora com instinto revolto, é pai de dezenas de outras baleias enjauladas nas piscinas azul-turquesa.
A crise, que o SeaWorld se encontra hoje, ganhou um novo capítulo em 1999, quando um mendigo de Orlando invadiu a área do parque aquático, sem que ninguém o visse… ele teria esperado até que anoitecesse e pulado em uma das piscinas. Para o azar dele, Tilikum estava lá. O dia amanheceu e o rapaz foi encontrado na boca de Tili. Era a segunda morte do gigante assassino.
Tili ganhou fama de perigoso e, apesar de ainda muito dócil, só podia interagir com um dos treinadores: Dawn Branchaeu, de 40 anos. Os amigos de Dawn relatam que a relação entre o animal e a treinadora era como pai e filha. Mas, como toda relação é complicada, em 2010, Tili puxou Dawn pelo braço, em frente ao público (veja o vídeo abaixo). O que parecia uma brincadeira, se tornou o ponto crucial da crise do parque americano: Tilikum afogou e matou Dawn, a mais experiente do time. O mundo do gigante SeaWorld caiu.
Wendell Estol, biólogo e diretor-geral da ONG Sea Shepherd no Brasil, que, há 30 anos, protege a vida marinha de navios baleeiros e pescadores, acredita que a principal razão, para que Tilikum e outras baleias tenham comportamento agressivo, é o confinamento por si só:
“É o estresse que viver em cativeiro causa. Simples assim. É como presidiários que, de vez em quando, se rebelam. Temos sempre que lembrar que orcas são mamíferos como nós, que vivem em sociedade como nós e, logo, têm reações como as nossas. A diferença é que estas orcas não cometeram crime algum para que sejam condenadas à prisão perpétua.”
O PEIXE NEGRO
Para piorar ainda mais a reputação do SeaWorld, a CNN colocou todo o talento sensacionalista e jornalístico dela – se é que ainda existe – em prática. Em uma coprodução, lançou o documentário “Blackfish – Fúria Animal”, em 2013. O filme mostra toda a história da captura das baleias, ouve ex-treinadores, critica fortemente a atitude do SeaWorld e consegue a entrevista mais humana de todas: o relato do baleeiro que estava no dia da caça de Tilikum.
O depoimento é uma mistura de nojo com agonia. Arrependido, o mergulhador John Crowe diz que os caçadores usavam todo tipo de arma para capturar as baleias, inclusive bombas. Visivelmente abalado, Crowe revela que, ter caçado aquele trio de baleias, foi a pior coisa que fez na vida: “foi como tirar uma criança dos braços da mãe”.
Para Wendell Estol, da Sea Shepherd, o maior problema em tirar orcas do habitat natural é que elas estão no topo da cadeia alimentar do ecossistema delas e tem, como função, regular toda a vida marinha que está abaixo. “Isso implica na superpopulação de animais que, antes, eram predados pelas orcas. Logo, se houver um crescimento exagerado desta população, que servia de alimento para as baleias, haverá um declínio das populações de presas, gerando um efeito cascata, até que a base da cadeia seja afetada. Isso faz com que o sistema entre em colapso”, explica o biólogo.
Desde o lançamento de “Blackfish”, uma das principais atrações de quem visita a Flórida tem se afogado em meio a tantas críticas e reportagens negativas. Ativistas começaram a cobrar, cada vez mais, a postura do parque para com a vida marinha e abrir processos atrás de processos. O SeaWorld sempre se defendia, dizendo que os animais são muito bem-tratados e que ajuda na educação das crianças e no estreitamento da relação humano x animal. A desculpa já não cola mais…
A organização The Dodo, recentemente, divulgou novas acusações ao parque, baseadas no livro do ex-treinador John Hargrove. O site publicou uma lista de remédios que funcionários do SeaWorld dizem conter na dieta das orcas: antiácidos, antibióticos, antipsicóticos, benzodiazepínicos (Diazepam) e até contraceptivos.
No começo do ano, uma americana da Carolina do Norte, que visitou o parque em Orlando, em 2013, também apresentou um processo contra o SeaWorld, acusando o grupo de drogar os animais, submeter as baleias a nadar em piscinas rasas demais (o que causa queimação na pele por causa do sol) e, ainda, pintar os machucados das orcas com óxido de zinco preto, para disfarçar as lesões causadas na pele. À justiça, ela pede o reembolso do ingresso dela ($97) e de todos os visitantes do parque nos últimos quatro anos. Ao SeaWorld, ela pede consciência para com a vida marinha.
A CRISE
O reflexo de tanta crítica mexeu no que mais preocupa os donos do SeaWorld: o dinheiro. No ano passado, o parque recebeu um milhão de visitantes a menos do que em 2013, quando o “Blackfish” foi lançado. São mais de 25 milhões de dólares em prejuízo, somente no último trimestre de 2014. O resultado disso é um efeito dominó. Em dezembro, o SeaWorld decidiu colocar 300 funcionários em sistema de layoff e cortar 50 milhões de dólares do orçamento de 2015. O CEO pediu para sair.
Na tentativa frustrada de jogar limpo com quem visita os parques em Orlando (Flórida), San Diego (Califórnia) e San Antonio (Texas), o SeaWorld, desesperado, criou a campanha “#AskSeaWorld”, ou “Pergunte ao SeaWorld”, e convidou as pessoas a fazerem perguntas no Twitter, que são respondidas em um site de tira-dúvidas. O que seria solução para o parque, acabou se tornando um playground para os ativistas. Vale conferir.
Além do lançamento do portal de dúvidas, o parque também anunciou que vai construir tanques maiores para as baleias. É de foder. Quando é que o SeaWorld vai entender que elas não precisam de piscinas maiores? Estes animais precisam do habitat natural, do convívio com a família, com outras espécies e o principal: de respeito. Falta isso no balanço anual do parque… é uma conta que não fecha.
“Baleias e golfinhos são animais que utilizam o som em altas frequências para se comunicar, localizar presas e se orientar. Num tanque, este som rebate nas paredes e causa o que chamamos de reverberação. Além disso, o som dos motores de bombeamento de água das piscinas, o som do público e a música dos shows afetam os animais, causando estresse e praticamente enlouquecendo-os. É como se nós, humanos, passássemos o tempo inteiro em uma sala com ecos e ruídos constantes. Isso implica no uso regular de medicamentos, como tranquilizantes, para tratamentos de gastrite e doenças relacionadas ao estresse e à depressão”, acredita o diretor-geral da Sea Shepherd Brasil.
OUTRO LADO
Procurado, o grupo SeaWorld informou, em nota, que não captura baleias-orcas no mar há 35 anos e que “o parque segue todas as regras das organizações zoológicas mais importantes do mundo”. O SeaWorld ainda reiterou, dizendo que “todas as orcas estão saudáveis e bem adaptadas ao ambiente”.
Em relação às acusações do documentário “Blackfish”, o grupo afirmou que os depoimentos e informações contidas no filme são “no mínimo falsos” e acusou a produção de “propaganda enganosa”.
Sobre a polêmica dos remédios na dieta das baleias, o SeaWorld diz, no próprio site, que “cuida e medica os animais como qualquer outro veterinário cuidaria”. Mas não explica o uso de medicamentos fortes como contraceptivos e até antipsicóticos.
O fato é que a verdade é uma só: assim como os humanos, animais selvagens nasceram para viver livres e da maneira que bem entenderem. Você pode dar tudo que um leão gosta, por exemplo. Comida, sombra e água fresca. Mas erra ao tirar dele a liberdade e impor que ele faça apresentações num circo, na hora que o treinador bem entender. Isso não deixa de ser considerado maus-tratos…
Fazer o mesmo com baleias, golfinhos, leões-marinhos e outros animais tão dóceis e tão inteligentes é a mesma coisa. Afinal, liberdade é um direito ou um privilégio? Eis o pedido de um apaixonado por animais e parques de diversões: libertem as baleias e façam o que Orlando tem de melhor. Montanha-russa.