O fim de uma era

Do fundo da piscina azul-turquesa, ele deve nadar mais aliviado. Com olhar desconfiado, de quem foi maltratado na infância, passou a adolescência fazendo shows performáticos e a juventude, reproduzindo em massa… Tilikum, o gigante do SeaWorld, respira mais calmo: é que chegou o fim de uma era nos tanques do parque.
O anúncio do grupo SeaWorld, de que encerrou o programa de reprodução in vitro de baleias, coincide com a notícia recente de que o gigante das águas de Orlando não vai nada bem. Tili está com uma infecção no pulmão, uma doença crônica que, provavelmente, vai custar a vida do animal.
Em um vídeo, divulgado pelo parque, o veterinário Scott Gearhart disse que a situação da baleia de Blackfish é extremamente preocupante: “queria poder dizer que estou tremendamente otimista a respeito de Tilikum e seu futuro, mas ele tem uma doença crônica e progressiva, que pode eventualmente causar sua morte”.
Tilikum nada nas águas do SeaWorld há 23 anos. Capturado ainda bebê no mar da Islândia, teve uma infância difícil – antes de chegar ao parque em Orlando – e está envolvido em três mortes. Uma delas é da famosa ex-treinadora Dawn Brancheau, morta por Tili em frente ao público.
SeaWorld: do sonho ao pesadelo
Extremamente depressivo há muitos anos e, agora, mais doente ainda, Tilikum provavelmente não vai ver de perto o que o SeaWorld demorou demais para fazer: parar a reprodução em massa das baleias – já deveria ter acontecido há muito tempo. Encerrar com os shows performáticos… nem se fale!
Segundo o anúncio divulgado pelo parque, as mudanças nos shows começarão no ano que vem. Primeiro, pelo SeaWorld de San Diego, na Califórnia, que já havia anunciado a medida. Depois, vão acabar com os shows em San Antonio, no Texas, e, finalmente, em Orlando – o mais visitado – em 2019.
Elas vão continuar fazendo exercícios e recebendo os cuidados veterinários necessários… e o público poderá ver os animais de perto até morrerem. Depois disso, baleias – lá – nunca mais. “O SeaWorld foi o responsável por apresentar as orcas para mais de 400 milhões de visitantes e estamos orgulhosos pela nossa contribuição para o entendimento humano sobre esses animais”, disse Joel Manby, presidente e CEO do parque.
“Assim como o entendimento da sociedade sobre as orcas mudou, o SeaWorld também está mudando. Ao fazer dessa geração de orcas a última sob nossos cuidados e repaginando a maneira de como os visitantes vão se encontrar com esses animais maravilhosos, nós estamos reforçando a nossa missão de oferecer aos visitantes experiências significativas”, explicou o CEO.
Também em nota, o parque reiterou que “a companhia não coleta orcas do ambiente selvagem há mais de 40 anos e as que vivem no SeaWorld nasceram lá ou passaram a maior parte de suas vidas sob cuidados humanos”. Segundo o grupo, essas orcas não poderiam voltar ao habitat natural porque os oceanos “oferecem ameaças como poluição e outros danos causados pelo homem”. O dano causado por eles, eles não contam.
É claro que a decisão do gigante SeaWorld tem viés mais econômico do que ambiental. Os donos do parque já não veem mais tanto dinheiro entrar nos cofres como antigamente. Depois do lançamento de Blackfish, então, a coisa foi de mal a pior: ganhou fama de circo que maltrata animais. O público respondeu na bilheteria e grandes parceiros como JetBlue, Hyundai, Mattel, Virgin America cancelaram contratos. O resultado não poderia ser outro: o lucro da empresa caiu 84%.
O gigante – agora – tem uma missão difícil pela frente, porém não impossível: a de se reinventar depois de tanto tempo fazendo a mesma coisa. Os marketeiros vão ter que mudar a fama do parque; os engenheiros, investir em boas atrações; e a marca Shamu, ganhar a confiança, principalmente dos americanos, decepcionados com o SeaWorld.
O grupo também tem outra missão… que não passa de uma obrigação: fazer o serviço de “consciência ambiental” completo. Parar também os shows com os golfinhos e as aves. Sem isso, o balanço não fecha. A história não cola. O SeaWorld precisa entender que o problema não são as baleias, é o confinamento por si só.