Meu encontro com Waly
Só aos 21 anos, fui à minha primeira feira literária. Era um estudante de jornalismo em Salvador, ainda excitado com a profissão, quando recebi, de um professor, a tarefa de entrevistar escritores num evento que acontecia no Centro de Convenções da Bahia. Foi o meu primeiro encontro com João Ubaldo Ribeiro e Waly Salomão. Este último ainda um desconhecido para mim.
Tímido, inseguro, inocente, puro e besta, munido de um gravador de fitas e um pequeno bloco de notas (com as perguntas já formuladas), sentei na primeira fila do auditório, bem de frente para os convidados. Já era um admirador de João Ubaldo e, naquela altura, já havia lido uns dois ou três livros dele. Mas Waly era uma completa novidade. Lembro de ter ficado muito impressionado com a força expressiva, a perturbação, a inquietação, a fluidez particular de pensamento e fala dele. Glauberiano, uma explosão de palavras, acompanhada por uma performance corporal jamais vista por mim. Waly era um ator em cena, que nunca saía do personagem dele: o poeta eloquente.
A muito custo, consegui fazer apenas uma pergunta para cada convidado. Um grande feito, porque o salão estava lotado de estudantes, professores, jornalistas, fotógrafos e expositores. Não lembro exatamente a pergunta que fiz para Waly, muito menos a resposta dele. O que ainda guardo perfeitamente em minha memória foi a sensação de estar, pela primeira vez, frente a frente com um gênio. Um homem fora do próprio tempo, deslocado e, visivelmente, desconfortável com os padrões sociais e comportamentais da época dele.
Saí de lá completamente inebriado e, como não tínhamos Google naquele tempo, recorri à Barsa de meu pai. Alguns dias depois, tive a sorte de encontrar “Algaravias” num sebo da Praça Castro Alves, além de outro livro que falava sobre a vida e obra dele.
Filho de uma baiana com um sírio, Waly Dias Salomão nasceu em Jequié, na Bahia, em 1943, e se formou em direito pela UFBA, mas nunca exerceu a profissão de advogado. Aquilo não era pra ele. Waly queria transgredir. Foi à Salvador para influenciar os tropicalistas e participar dos movimentos da contracultura. Escreveu livros de poesia, ganhou o Prêmio Jabuti de literatura e é um dos mais importantes letristas de canções interpretadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa. Com o poeta Torquato Neto, Waly Salomão criou a revista “Navilouca”, que entrou para a história editorial pelas inovações e linguagem de vanguarda. No cinema, o poeta encarnou outro poeta, o Boca do Inferno, como era conhecido o baiano Gregório de Matos. Durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, Waly assumiu o “personagem” de secretário Nacional do Livro. Uma das propostas era colocar um livro na cesta básica do brasileiro. Mas eram apenas sonhos de Waly.
No dia 05 de maio de 2003, ele desencarnou. Estava com 59 anos e lutava contra um câncer no intestino, que acabou se alastrando para outros órgãos. Se fosse vivo, estaria, hoje, com 70 anos. Durante o tempo em que morei na Bahia, nunca vi qualquer homenagem e referência ao poeta… poucos por lá, na verdade, o conhecem. O Rio, que abrigou tantos baianos, acolheu também Waly. Soube, por esses dias, que existe, em Vigário Geral, um centro cultural com o nome dele, ligado ao AfroReggae. Um dia, quem sabe, irei fazer uma visita. Por enquanto, me delicio com a profusão ensandecida do discurso de Waly, num documentário de Carlos Nader dedicado a ele: “Pan-Cinema Permanente”.
EXTERIOR (WALY SALOMÃO)
POR QUE A POESIA TEM QUE SE CONFINAR
ÀS PAREDES DE DENTRO DA VULVA DO POEMA?
POR QUE PROIBIR À POESIA
ESTOURAR OS LIMITES DO GRELO
DA GRETA
DA GRUTA
E SE ESPRAIAR EM PLENO GRUDE
ALÉM DA GRADE
DO SOL NASCIDO QUADRADO?
POR QUE A POESIA TEM QUE SE SUSTENTAR
DE PÉ, CARTESIANA MILÍCIA ENFILEIRADA,
OBEDIENTE FILHA DA PAUTA?
POR QUE A POESIA NÃO PODE FICAR DE QUATRO
E SE AGACHAR E SE ESGUEIRAR
PARA GOZAR
– CARPE DIEM! –
FORA DA ZONA DA PÁGINA?
POR QUE A POESIA DE RABO PRESO
SEM PODER SE OPERAR
E, OPERADA,
POLIMÓRFICA E PERVERSA,
NÃO PODER TRAVESTIR-SE
COM OS CLITÓRIS E OS BALANGANDÃS DA LIRA?