Brasil 2014

Inflamação da Copa

servido por: Sheila Fernandes

Há quase cinco anos, dei entrada num apartamento no Morumbi. O valor do metro quadrado na região e a qualidade do acabamento do imóvel foram atrativos. E com a promessa de que o monotrilho, que ligaria Congonhas ao estádio do Morumbi – devido à Copa do Mundo em 2014 –, chegaria até a linha amarela do metrô (na Vila Sônia).

A abertura da Copa foi transferida para o Itaquerão e a obra do trem de superfície, prevista e orçada em 03 bilhões de reais (como projeto para o Mundial), foi atrasada, para não dizer excluída. Afinal de contas, a obra passa, atualmente, pela Avenida Roberto Marinho, no Brooklin, próximo à Marginal, mas vai ser difícil chegar até o Morumbi antes de 2016. Lembrando que os moradores do bairro nobre do Palácio dos Bandeirantes se uniram para derrubar a proposta, que beneficiaria milhares de trabalhadores que os servem diariamente, porque esse transporte público deixaria a área visualmente feia e provocaria desvalorização das casas milionárias.

Por opção, eu uso o transporte público para me locomover nas minhas atividades cotidianas. Hoje, onde moro, não encontro dificuldades porque, no atual bairro, tenho acesso a corredores e as mais diversas linhas que cortam a cidade. E, em breve, uma estação do metrô será minha vizinha. Em contrapartida, já coloquei à venda meu primeiro imóvel próprio, porque não terei a tal mobilidade urbana que todos aclamavam no meio do ano passado. Sou privilegiada em optar por morar de aluguel por mais um tempo até encontrar um local adequado às minhas vontades.

Lá do outro lado, no extremo da cidade, estão os moradores do bairro de Itaquera, onde, provavelmente, será a abertura da Copa no Brasil (o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, disse que o estádio estará pronto “no último minuto”). Eles que ainda lutam diariamente para encarar duas ou mais horas no transporte público até chegarem ao trabalho. Os investimentos bilionários na região não ampliaram as duas estações de metrô (Artur Alvim e Corinthians-Itaquera), apenas compraram novos trens. E uma redução no intervalo entre eles (sei…).

O plano de desenvolvimento para a zona leste, com foco em Itaquera, previa ampliação do Complexo Viário no bairro, que custou aos cofres públicos R$578 milhões (previa porque algumas obras ainda serão entregues; outras, porém, só depois do Mundial). Também era previsto o Pólo Institucional de Itaquera: um complexo de serviços públicos e educação profissionalizante, com fórum, rodoviária, Fatec/Etec, parque, posto de polícia. Esse belo projeto, de acordo com o Comitê Paulista (uma espécie de Secretaria Estadual para Assuntos da Copa do Mundo), se desenvolverá ao longo dos anos (sabe lá quantos) e com a ajuda de empresários, como a FIESP, por exemplo.

Os 04 mil moradores de Itaquera e os 04 milhões da zona leste ainda esperam pelas melhorias que a Copa do Mundo promete, que vai muito além da valorização imobiliária.

Voltando ao tema… um corretor me ofereceu um apartamento por 830 mil reais. Um ótimo negócio, diz ele. Claro, para a comissão dele. Ainda que eu vendesse meu atual empreendimento, economizasse até na pasta de dente, eu teria um financiamento absurdo para comprar o imóvel oferecido. Entre julho de 2012 e julho de 2013, a valorização do metro quadrado em São Paulo e no Rio de Janeiro foi de 12%. A inflação, no mesmo período, não chegou a 07%. Vem aí a desaceleração, segundo especialistas. Seja bem-vinda. Meu bolso agradece!