Raciocínio

Máquina do tempo

servido por: Alfredo Tambeiro

Todos nós já desejamos ter uma máquina do tempo, para poder voltar atrás e modificar algo que fizemos e nos arrependemos. Geralmente, essa ideia surge quando tomamos aquele porre homérico; no meio de uma discussão em que falamos algo cruel e percebemos que não podemos retroceder; ou quando desejamos ter uma vida bela e perfeita.

Se fosse possível, qual seria o momento que você mudaria?

No exato instante em que pensamos nisto, nossa mente traz, à tona, um compacto dos momentos não muito nobres de nossa existência.

Mas, aí, aparece uma dúvida… que critérios temos que usar para esta avaliação?

A ideia do ser humano perfeito não passa de uma fantasia, já que a perfeição não é um conceito unânime… o que é bom para outro, não é para você.

Então, partimos para escolher o critério do ego. Ele vai analisar as situações em que não estamos tão bem… e, aí, descobrimos que este conceito é meio egoísta, porque, ficar bem na fita, não vai alterar esta lista.

Nos deparamos, de novo, com todos os fatos que nos trazem vergonha… sim, é isto!

Na vergonha, muitos dos sentimentos, que não gostamos de lidar, estão introduzidos: timidez, raiva, medo, fracasso, além da paralisia… sim, também temos vergonha do que não fizemos.

Critério aceito.

E, de repente, como num passe de mágica, começamos a rir baixinho do terrível porre, porque ele é apenas um fato engraçado da nossa história. Quando a comédia se instala em nossas vidas, ela não é bela, é igual a um palhaço que leva torta na cara.

Este acontecimento, definitivamente, sai da lista.

Ufa, menos um!

Aí, relembramos aquela briga em que mencionamos o que não devíamos ter dito… não, peraí, por que mesmo eu falei daquele jeito?

Ah, foi a única maneira que consegui me expressar naquela situação… não foi bonito, confesso, mas foi verdadeiro.

É, a verdade nem sempre é bela… algumas vezes, ela é desconfortável também.

Riscado mais um item.

Mas, nesta cartela de situações, estão também, ali no cantinho, a tristeza de não ter tido coragem para dar aquele beijo e para dizer “eu te amo”.

Como lidar com a falta de coragem?

Isto, sim, é imperdoável… agora, vejo a necessidade de uma máquina do tempo.

A ausência daquele beijo alterou a minha história… peraí, mudou mesmo?

Mudou. Depois deste acontecimento, não tive mais medo de me expressar… então, a falta de audácia foi o que me impulsionou a tê-la? Confuso? Não. Muitas vezes, só sabemos que precisamos de coragem na vida, quando ela nos falta em algum momento. Então, este fato deixa de ser vergonhoso e passa a ser um exemplo, que guardamos a vida inteira, para não se repetir.

Nossa, a lista diminui.

Agora só resta o item: não disse “eu te amo”.

O que me impede de dizer “eu te amo”?

Nada, posso escrever e gritar quantas vezes eu tiver vontade… então, está decidido, a partir de agora, vou falar “eu te amo” para quem eu quiser.

Então, para que mesmo eu quero a máquina do tempo?

Já sei, para recordar todos os momentos vividos, para entender que a vida não é bela, sequer perfeita… na verdade, ela é um novelo, um grande emaranhado, com amores, alegrias, decepções, choros e risadas…

A vida só quer que nós tenhamos coragem, para aceitar que ela não pode ser definida por um momento e, sim, por tudo que vivemos.