Mulheres

Mãe é doida e sofre calada. Mãe é mulher duas vezes.

servido por: Felipe Batista

De olhos castanhos, cabelo: às vezes, moreno; às vezes, com mechas loiras; às vezes, meio ruivo. Estatura baixa, riso fácil, olhar profundo… intensa, foi sempre meio doidinha. Desde que me conheço por gente, dona Sandra é meio maluca. Fala sozinha, vai ao banheiro no escuro, tem mania de limpeza. Mas é filhona, amigona, irmãzona, MÃEZONA. E divertida…

Mãezona daquelas exigentes, mas que sempre fez de tudo pela gente. Às vezes, a enlouquecíamos com tanta bagunça, afinal éramos em três. Hoje, a enlouquecemos de tanta saudade. Um na Dinamarca, outra em Portugal e outro que não para em casa. Minha mãe sempre foi forte. Um poço de garra. E simples, sem exageros ou egoísmo.

Geralmente, ela não liga perguntando que horas vou voltar, nem onde estou, mas sei que me espera acordada. Assim, com um olho meio aberto, outro meio fechado. Esperando calada. Calada, também sei que ela chora de saudade do meu irmão antes de dormir, da minha irmã ao acordar. Consciente de que criou os filhos para o mundo.

Aos 17 anos, seis anos atrás, ela me viu arrumar as malas e partir para uma viagem de um semestre ao Canadá. Forte, segurou a barra. Depois foi meu irmão, depois minha irmã, depois eu de novo, depois meu irmão de novo, depois minha irmã de novo. Coração bandido, ainda dá tchau com o sorriso no rosto, apesar das lágrimas incontidas nos olhos. Olhos que, nela, se expressam mais que as palavras.

Acontece que, desta vez, quem teve que ver ela ir embora fui eu – muito mais egoísta, fraco e dramático. Ao entender que cumpriu o papel de criar-nos para o mundo, ela resolveu viver o próprio mundo. Que coragem! Poucas mães fariam isso. E ao resolver viver a vida dela, entendeu que ela seria mais feliz perto da família, a 500km de São Paulo.

Egoísta, me senti traído. Abandonado. Mas ao cair na real, entendi que passava pelo que ela passou quando, aos 17, entrei naquele avião, bem maior que eu, bem menor que a força dela. A diferença é que ela, mesmo como mãe, reagiu melhor. Lidou como um mulherão! Como uma mãezona!

Ao reconhecer o quão importante é essa decisão para ela, vi na minha mãe, pela primeira vez, o tipo de mulher que quero para os meus filhos: forte, corajosa. Atenta aos movimentos que a vida dá, às curvas que o rio percorre. Neste Dia Internacional da Mulher, só consigo pensar nela e no quanto quero que ela, agora, só aos 48 anos, voe. Voe o mais alto que puder. Será que isso ela aprendeu com a gente?

No fundo, sou meio doido também. Afinal, não consigo nem descrever a cor do cabelo dela. Mas, assim como ela morre de amores por nós, por quem nos tornamos e pelos voos que alçamos, eu morro de amores por ela, por quem ela é e pelos voos que agora vai alçar. Ela é eu. Eu sou ela. Mãe é mulher duas vezes. Feliz Dia da Mulher.