A Baleia | Crítica

Preciso ser franco com vocês…
Como começar esse texto??
Sério…
Sem brincadeira.
Ainda estou repercutindo o que senti.
E que gerou um imenso ponto de interrogação na saída do cinema.
“Conferir se Rick O’Connell merece a estatueta?”

Bom, obviamente essa seria a opção mais votada se fosse uma enquete.
Com certeza, entrega uma atuação impressionante!
Isso para dizer o mínimo!
Apesar da maquiagem pesada e próteses (aliás, está competindo), vemos expressão facial, dor e a sinceridade passada no olhar…
Juntamente com a verdade na voz, criam uma comoção profunda.

Mas essa obra talvez seja sobre aquilo que não queremos ver…
Logo no início, vamos conhecer parte do martírio desse protagonista, instigando a turma na aula on-line.
A câmera desligada, alegando que está quebrada, é explicitamente por vergonha em relação à aparência.
Se alguém bate à porta, dificilmente interage.
Um homem solitário e recluso, que se esconde em uma pequena casa…
A dificuldade de locomoção o limita.
Estampa uma delicadeza e a tristeza daquele que abdicou dele mesmo…
Reiteradamente pedindo desculpa, sem ter feito nada.
E passa os dias à deriva da própria existência, aguardando o inevitável fim.
Assombrado pelas consequências de escolhas duvidosas e por um passado doloroso, que ocasionaram marcas irreversíveis.
Com poucos segundos de projeção, já somos tomados por esse desconforto…
Enquanto descobrimos os traumas que ele carrega.
E a crença inabalável na bondade humana.
Um exemplo é o pedido repetitivo aos alunos, para que se mantenham honestos nas redações.
Se estabelece como um otimista incorrigível e isso é mostrado que nem problema…
Mas define quem realmente é, esperando que as pessoas sempre tirem o máximo de si.
Abrindo o leque a várias discussões sociais: saúde, amizade, amor, família, religião, dinheiro, sexualidade, preconceito, etc.
Sim, os trabalhos de Darren Aronofsky são polêmicos.

Fico na dúvida se perder espaço abordando isso é o caminho para interpretar A Baleia.
Porque é um diretor controverso.
Na maioria das tramas, uma parcela acha que quer apenas chocar, usando e abusando do sofrimento alheio para provocar algum abalo genuíno no espectador.
Constantemente levando profissionais ao limite da performance. Trouxe O Lutador e Cisne Negro às telonas.
Não se distanciando de um tom pessimista/realista quanto ao destino dos personagens.
Jamais pega na mão da audiência, geralmente pretende incomodá-la.
Um pelotão de fuzilamento tem mais sutileza.
Inspirado em uma peça escrita por Samuel D. Hunter. Fiel à influência do teatro na proposta narrativa, especialmente com a disposição cenográfica nesse ambiente singular.
As visitas que Charlie recebe são como a troca de atores no palco.
No ponto de vista cinematográfico, a concepção se encaixa na linguagem e gera as sensações vividas pela figura central. Estamos presos ali.
Os designs de produção se destacam no currículo do cineasta.
Ganham protagonismo. Isso ocorre com a residência idealizada por Mark Friedberg, tal qual aconteceu em Mãe! (Philip Messina).
Nos dá uma sensação de desamparo, que o descaso vai além…
Confirmando a depressão que o assola.
A chuva torrencial insistente ressoa e reforça essa angústia.
O enquadramento de Aronofsky é claustrofóbico.
Capaz de construir uma atmosfera que sufoca até o público.

E o desenrolar do longa no período de uma semana?
A passagem de tempo é diária, nos jogando nessa contagem regressiva para autodestruição.
Em nenhum instante da jornada, deseja melhorar a respectiva situação.
Forte!
Bora detalhar a maestria desse elenco, que conta com interações convincentes.

Pensa que é somente esse ícone dos anos 90, astro de George, o Rei da Floresta e A Múmia??
Posso citar Viagem ao Centro da Terra na década seguinte para os novinhos…
Forçado a se afastar dos holofotes por um hiato dolorido (conceito amplo) na carreira.
Brendan Fraser oferece gentileza e humanidade para fugir da caricatura, se submetendo ao estado extremo de pura fragilidade psicoemocional.
Agora, distante das comédias, Fraser é indicado ao Oscar pela primeira vez.
Porém, para mim, a surpresa é Hong Chau.

A condição do amigo, com quem compartilha uma conexão especial, deixa Liz temerosa.
Enfermeira, consegue ajudá-lo, ainda que não veja uma luz no final do túnel.
A atriz, que arrasou em O Menu, tem a árdua missão de dosar uma mulher cética e raivosa, mas também vulnerável…
Há algo de verdadeiro e difícil aqui, na forma como ela percorre um caminho turvo: facilitadora da tragédia ou única salvação.
A abordagem curta e grossa funciona bem durante o filme. São batalhas frequentes entre os dois, de maneira amorosa e solidária.
Contudo existem momentos de leveza e piadas.
Chau concorre na categoria coadjuvante.
Não à toa, a razão dela permanecer ao lado de Charlie me comoveu muito mais do que os outros pretextos de ajuda.
Lidando com fantasmas, o missionário Thomas busca a redenção pessoal.

Direto de Vingadores: Ultimato, Ty Simokins apresenta um questionamento à fé e o impacto da devoção.
Mas a conclusão fraca, e sem grande efeito, serve simplesmente de trampolim para Sadie Sink.

Famosa por Stranger Things…
Toca Running Up That Hill!!
OK, voltando…
Reativa, manipuladora e raivosa.
Assim defende o posto de ser uma das gratas revelações da nova geração.
Ellie é confusa, uma adolescente frustrada e revoltada com o abandono paterno.
Apreensiva ao encará-lo, é agressiva.
Após quase uma década sem contato, o pai se esforça para voltar a ter contato com a filha.
É uma luta fadada ao fracasso…
Perceber que não vai dar para o relacionamento se restabelecer é desesperador.
A jovem é o elo que nos fará entender a complexidade do papel principal.

Ah, o título faz uma alusão ao clássico da literatura Moby Dick.
A metáfora está subentendida, ambos sofrem por causa da própria natureza…
Insociável depois da morte do parceiro, enfrenta obesidade mórbida e compulsão alimentar, com o psicológico frágil… totalmente destruído.
O sensacionalismo me incomoda…
O vício em comida é retratado com dramaticidade exagerada.
Uma interpretação de animalidade, embora seja um intelectual.
O debate do consumo excessivo é necessário, lógico, mas não precisa das diversas sequências ao som de uma trilha incisiva e um tanto apocalíptica.
E na última cena, mesmo trazendo a libertação, achei que fugiu da pegada original.

Inquietante e arrebatador.
Nunca confortável…
Retrato verossímil de uma realidade. Obrigado pela sociedade a se curvar diante daquilo que o sistema julga correto.
Uma viagem tocante, emocionalmente estafante e dramática.
É um longa-metragem problemático? Sim. Vale a pena ser visto? Evidentemente.
Três mensagens que me marcaram…
1) quão sombrio o luto pode ser quando não tratado e encarado de frente.
2) a culpa que guardamos no decorrer das nossas vidas e como isso se reflete em nós.
3) é sobre acreditar no melhor de cada um.
Triste e potente.
Provavelmente, não vou assisti-lo de novo.
